Parte do meu eu

O galo Samuel

Quando nasci foi uma festa só. Vinham primos, tios irmãos e até  avó.

Do ovo saí, para a luz olhei, meus olhos apertadinhos, quase cego fiquei. Todos riam e brincavam, gargalhadas eu ouvi, foi quando tirando a última casca, só ciscando eu caí.

Minha mãe correu e rápido em suas asas me abraçou, e deitado bem quentinho, nos meus olhos ela olhou. “Meu filhinho cor de mel, vou te dar um belo título, o seu nome Samuel”. A festa foi tão grande por me virem nascer, tantas músicas, muitas danças, foi até o amanhecer.

Fui crescendo e fui vendo minhas peninhas escurecer, minha mãe ensinou tudo sobre o ganhar e o perder. Me disse tudo da vida, do que é ser ave no mundo, e o destino da galinha para além do prato fundo.

Poucas vezes liguei para o que minha mãe dizia, achava que muito daquilo era tolice dia a dia. E o tempo foi  passando e eu mais galinho ficando e à minha prima Nilda fui me afeiçoando.

Um dia saímos para caçar minhocas e falei do meu amor, ela riu da minha cara e aquilo me deu dor. Como nunca tinha sentido, comecei a chorar, minha mãe com seus conselhos me falou sobre o amar.

Desejei todo o mal e ave não queria ser, queria sair pelo mundo e uma vida de verdade ter. Foi quando em uma noite, toda dor só aumentou, o meu dono catou umas galinhas e a muitas ele matou.

Dentre elas estava Nilda, que gritava o meu nome. Eu ria da sua desgraça e dizia mata fome!

Foi quando uma voz de dentro da cozinha reconheci. Minha mãe me chamava e por dentro eu tremi.

Saltei, voei, lutei, não podia deixar. Aquelas mãos malditas minha mãe degolar. Vi os dedos a torcer de mamãe o pescoço. Corri, cambaleei. “Não faça isso, seu moço!”.

Correndo atrás de mim veio então o menino, com um pedaço de pau ele queria o meu mal. Bati bem forte as asas e a ele encarei, por milagre dessa vida sobre ele eu voei. Passei pelo cercado fui voando e só olhando, e o menino espantado ficou lá esbravejando.

Cai do outro lado a chorar. Corri e já no asfalto lá da rua eu sorri. Chorei foi muitos dias e até fome passei. Foi então que já combalido outro dono encontrei. Esse era bem bonzinho e comida ele me dava, mas foi com o passar do tempo que percebi toda cilada.

A ideia era simples, alimento para forçar, uns treinos ele me deu, que era para eu brigar. Já com o peito e as coxas prontos, ia  à rinha pela noite. Ganhei muitos torneios, era o grande campeão, até que numa dessas um mais moço me pôs no chão.

Ele era tão forte e mais esperto que me amassou a cara, tinha ódio em seus olhos e de me surrar quase não para. “Está vendo os meus olhos, Samuel amaldiçoado? Minha mãe tu desejou a morte, e agora me vingo como um galo”.

Em cima de mim estava e com as esporas arranhou, de uma vez sem avisar, os meus olhos arrancou. Era Bruno, o galinho, que nunca vi na vida. Mas dizia a todos eles que era filho da galinha Nilda.

Depois daquele dia, minha vida acabou. Meu novo dono para outro me entregou. Disse ele: “Esse galo é um perdedor, faça dele um guisado que deve ainda ter sabor”.

O novo dono se emocionou, e a mim não cozinhou, todo dia me dá papa e me trata com amor.

Não enxergo mais um palmo diante dos meus olhos, toda noite aqui em casa lembro-me da vida e choro.

Não tenho mais motivos de nessas condições viver, passa o dia e a noite e só penso em morrer.

Não há luxo nem glamour na vida de um pobre galo, é o que eu canto é o que eu verso, é o que eu digo e o que falo.