Parte do meu eu

O galo Samuel

Quando nasci foi uma festa só. Vinham primos, tios irmãos e até  avó.

Do ovo saí, para a luz olhei, meus olhos apertadinhos, quase cego fiquei. Todos riam e brincavam, gargalhadas eu ouvi, foi quando tirando a última casca, só ciscando eu caí.

Minha mãe correu e rápido em suas asas me abraçou, e deitado bem quentinho, nos meus olhos ela olhou. “Meu filhinho cor de mel, vou te dar um belo título, o seu nome Samuel”. A festa foi tão grande por me virem nascer, tantas músicas, muitas danças, foi até o amanhecer.

Fui crescendo e fui vendo minhas peninhas escurecer, minha mãe ensinou tudo sobre o ganhar e o perder. Me disse tudo da vida, do que é ser ave no mundo, e o destino da galinha para além do prato fundo.

Poucas vezes liguei para o que minha mãe dizia, achava que muito daquilo era tolice dia a dia. E o tempo foi  passando e eu mais galinho ficando e à minha prima Nilda fui me afeiçoando.

Um dia saímos para caçar minhocas e falei do meu amor, ela riu da minha cara e aquilo me deu dor. Como nunca tinha sentido, comecei a chorar, minha mãe com seus conselhos me falou sobre o amar.

Desejei todo o mal e ave não queria ser, queria sair pelo mundo e uma vida de verdade ter. Foi quando em uma noite, toda dor só aumentou, o meu dono catou umas galinhas e a muitas ele matou.

Dentre elas estava Nilda, que gritava o meu nome. Eu ria da sua desgraça e dizia mata fome!

Foi quando uma voz de dentro da cozinha reconheci. Minha mãe me chamava e por dentro eu tremi.

Saltei, voei, lutei, não podia deixar. Aquelas mãos malditas minha mãe degolar. Vi os dedos a torcer de mamãe o pescoço. Corri, cambaleei. “Não faça isso, seu moço!”.

Correndo atrás de mim veio então o menino, com um pedaço de pau ele queria o meu mal. Bati bem forte as asas e a ele encarei, por milagre dessa vida sobre ele eu voei. Passei pelo cercado fui voando e só olhando, e o menino espantado ficou lá esbravejando.

Cai do outro lado a chorar. Corri e já no asfalto lá da rua eu sorri. Chorei foi muitos dias e até fome passei. Foi então que já combalido outro dono encontrei. Esse era bem bonzinho e comida ele me dava, mas foi com o passar do tempo que percebi toda cilada.

A ideia era simples, alimento para forçar, uns treinos ele me deu, que era para eu brigar. Já com o peito e as coxas prontos, ia  à rinha pela noite. Ganhei muitos torneios, era o grande campeão, até que numa dessas um mais moço me pôs no chão.

Ele era tão forte e mais esperto que me amassou a cara, tinha ódio em seus olhos e de me surrar quase não para. “Está vendo os meus olhos, Samuel amaldiçoado? Minha mãe tu desejou a morte, e agora me vingo como um galo”.

Em cima de mim estava e com as esporas arranhou, de uma vez sem avisar, os meus olhos arrancou. Era Bruno, o galinho, que nunca vi na vida. Mas dizia a todos eles que era filho da galinha Nilda.

Depois daquele dia, minha vida acabou. Meu novo dono para outro me entregou. Disse ele: “Esse galo é um perdedor, faça dele um guisado que deve ainda ter sabor”.

O novo dono se emocionou, e a mim não cozinhou, todo dia me dá papa e me trata com amor.

Não enxergo mais um palmo diante dos meus olhos, toda noite aqui em casa lembro-me da vida e choro.

Não tenho mais motivos de nessas condições viver, passa o dia e a noite e só penso em morrer.

Não há luxo nem glamour na vida de um pobre galo, é o que eu canto é o que eu verso, é o que eu digo e o que falo.

Parte do meu eu

(Re)encontro

Sem título

Conheci Jamile nas redes sociais.  Não entendia muito dessas coisas sujas e bobas que aparecem na Internet procurando te entreter,  esconder,  vender,  ver.  Jamile chegou no bip-bip, passando sem diálogo aparente e convidando-me para encontrar  sua boneca de seis anos.  Busquei em tudo o que era página,  estava ansioso para ganhar o prêmio prometido por ela.  E por cinco horas busquei em tudo o que é sala de encontros íntimos (ou não) e não encontrei.  Talvez tenha virado pó,  talvez nem existisse,  talvez fosse o irmão de Jamile me pregando uma peça do outro lado da máquina.  Quando enfim desisti e já ia me eximir da responsabilidade com tudo aquilo,  a campainha toca três vezes. E eu não lembrava de tê-la consertado. Abri a porta e não vi ninguém,  apenas uma pontada na perna.  Era a boneca. Com os cabelos arrepiados,  um braço por faltar e um dos olhos pendurado perto do nariz,  a boneca chorava em meus pés e me molhava o tênis novo.  Parecia saída de algum filme de terror, mas não quis comentar,  não sou muito de fazer esse tipo de observação,  ainda mais sendo as bonecas seres tão sensíveis.  Pediu-me um copo com água, pois há dias me procurava em vão.  Eu também lhe procurei por cinco horas sem intervalo.  Você não sabe o trabalho que deu. Ela riu bem alto e caiu.

Duas horas depois,  a boneca acordou soluçando,  e eu dei a água por ela desejada.  Estava banhada,  penteada e com um braço novo. Tentei colar o olho esquerdo,  mas era complicado,  visto a falta de suporte craniano do globo ocular inexistente. Vi um leve sorriso no rosto da boneca que me contou todas as peripécias que desbravou até chegar ali. Precisava de um nome e dei “Capenga boa de bola”. Depois de dar sopinha,  banho e trocar suas fraldas,  “Capenga boa de bola” me chamou para enfrentar a rua e leva-la a casa de Jamile, que me esperava para uma noite sem igual.  Há 10 anos eu não colocava os pés fora de casa, nem nos momentos mais necessitados.  Prometi  a mim mesmo que minha pesquisa de campo não seria interrompida,  fosse qualquer a motivação para sair.  Mas o dia em que passei com “Capenga boa de bola” foi o mais feliz dos últimos anos. Pela primeira vez esqueci o que era trabalho,  solidão ou medo. A bonequinha me contou as mais hilariantes e perigosas aventuras,  desde sua amizade com um lagarto morto,  que a fez arrasta-lo por onde quer que fosse,  até a batalha com um vira-lata que arrancou-lhe o olho com uma mordida. “Capenga boa de bola”, no entanto,  deixou a história mais sensível e emocionante para o fim da tarde. Falou de Lucas,  o menino negro e afeminado que gamou na boneca, e a escondeu debaixo do seu colchão,  no barraco onde morava,  em uma favela distante do centro da cidade.  Pobre criatura.  Foi espancado pelos irmãos mais velhos,  que depois de arrancarem o braço de “Capenga boa de bola” jogaram-na em um esgoto a céu aberto no que se convencionou por lá chamar de quintal.

Ainda presenciou os meninos urinando no irmão mais novo,  que gritou tão alto que o barraco veio abaixo matando os três.  O jeito foi nadar entre os dejetos e lama, atravessar meio mundo e chegar até minha residência.  Não podia eu deixar todo o sacrifício de “Capenga boa de bola” ser em vão.  E ainda assim, queria eu conhecer Jamile, já na mente como minha futura esposa,  que do outro lado da tela do computador me fez juras e mais juras. Pensava em fazer a maior das surpresas à ela, e por isso,  com uma única marretada destruí o notebook. Joguei a TV pela janela,  afoguei o celular no vaso sanitário e sai quebrando pratos,  DVDs, CDs, mesa,  queimei o colchão,  destruí o guarda-roupa e, depois de quebrar a pia e o fogão, cortei a mangueira que fazia a ligação do gás de cozinha deixando vazar por toda a casa.  “Capenga boa de bola” parecia se divertir com tudo aquilo e beijou minhas botas antes de eu pegá-la nos braços. Olhei para todas as anotações que fiz ao longo de uma década e chorei como uma hiena, como se fingisse o riso. Já não estava mais lá.  Peguei meu arco e flecha,  abri todos os botões da camisa e por trás das minhas costas ressurgiram as asas, as quais não via há muito tempo.  “Capenga boa de bola” subiu em meus ombros, então saltei para fora da casa. Olhei para trás e apreciei pela última vez o lugar que me serviu de morada.  Peguei uma flecha,  acendi com um isqueiro a ponta, mirei na sala e disparei.  Logo que a flecha atingiu o solo da casa, o fogo se alastrou e alguns segundos depois as chamas deram início a três explosões,  uma atrás da outra.  Voamos em direção ao encontro de Jamile. Caia uma lágrima do olho de “Capenga boa de bola”. Ficamos horas voando e sem falar uma palavra até que “Capenga boa de bola” quis ir ao banheiro.  Descemos em uma padaria,  e o gerente,  um porco de 200 quilos, que sequer se aguentava em pé, tamanha era sua pança e pequenas suas patas,  pediu os documentos da boneca e minha habilitação para fazer uso de minhas asas.

Expliquei a situação,  mas o porco,  que parecia mais um agente  federal não quis conversa e disse que eu e “Capenga boa de bola” estávamos infringindo várias leis. Tive que suborná-lo e ele aceitou se corromper. Para isso,  teria eu que comprar alguns quilos de banha para o lanche e levar dois pratos cheios de lavagem,  que juntos custavam mais de cem contos,  e isso tudo apenas para que a pobre bonequinha tivesse o direito de utilizar o banheiro da padaria. É pegar ou pegar, disse o infame  vendedor porco. “Capenga boa de bola”, zangada com a situação,  arriou as fraldas e fez ali mesmo na mesa do porco. Foi um deus nos acuda. De repente, como num piscar de olhos,  dezenas de porcos surgiram por todos os cantos,  ocupando todos os espaços e sujando de urina e bosta toda a padaria.  Eles partiram para nos atacar a mando do gerente,  que não conseguia sair do canto devido a todo aquele peso. Oinc oinc oinc. Peguei “Capenga bom de bola” que colocava a fralda de volta e sai rodopiando por cima dos porcos que jogavam estercos e gordura em minhas asas. Pensava que estava tudo acabado,  e eis que surge o homem de chapéu azul, capa azul, tênis azul e calça branca. Ele tira o óculo azul e parte para cima dos porcos com dois enormes facões. A cena a seguir são orelhas,  focinhos e pedaços de patas voando junto com jatos e mais jatos de sangue e gritos de dor dos porcos,  que agonizavam após as investidas do homem de chapéu azul, capa azul,  tênis azul e calça branca.  Ele retira o óculo azul do bolso na capa e coloca de volta sob os olhos.  Olha para nós e manda que andemos, pois sua rixa era com o porco padeiro que se urinava todo no balcão.  Saímos pela janela e só ouvíamos os berros do porcão. Já estamos perto, explicou “Capenga boa de bola”. A casa estava há alguns metros da padaria onde ocorrera a carnificina dos porcos.

Nem tivemos tempo de agradecer ao nosso salvador.  Estava ansioso para, enfim conhecer Jamile. Ao chegarmos na casa, percebi que ela estava sem porta.  “Capenga boa de bola soltou uma gargalhada e disse que eu poderia entrar sem cerimônia.  Um gato, de nome “Rufos olhos” veio nos atender e disse que Jamile estava indisposta. “Capenga boa de bola”, mais uma vez, riu como uma desvairada e partiu para os braços de “Rufos olhos” que lhe lambeu os olhos enquanto chorava.  Eu meio sem jeito,  sujava todo o corredor com minhas asas sujas de banha e bosta. O senhor bem que poderia tomar um banho. Deve estar cansado da viagem, disfarçou o gato me apontando o toalete. Claro que estava cansado,  fedido e necessitando de um banho.  Não resisti ao convite e fui em direção ao banheiro,  sem antes me certificar que Jamile iria me atender.  Claro,  senhor.  No jantar todos nos reuniremos para tomarmos uma sopa bem quentinha, garantiu o gato que sumiu na escuridão da cozinha junto com “Capenga boa de bola”. Entrei no banheiro e dois macacos pularam sobre minha cabeça e por pouco não me derrubaram do precipício próximo ao aparelho sanitário.

Eles disseram que queriam dinheiro,  mas saíram correndo para dentro de casa quando viram minhas asas.  Ou será que foi o meu fedor?  Avistei uma fonte de água morna e passei umas duas horas me lavando,  na esperança de ficar o mais cheiroso possível.  Vesti a calça e  fiz com que minhas asas entrassem novamente nas minhas costas.  Era hora do jantar.  Enfim veria Jamile.  Os dois macacos reapareceram e ficaram rindo de mim. Correram em direção à cozinha agora iluminada.  Na mesa o gato, “Capenga” e os macacos ladrões,  todos me esperavam.  Uma voz suave começou a cantar uma música que lembrava minha adolescência,  era Jamile com umas duas notas acima do usual,  mas em princípio não conheci que canção era aquela. Oh, I been flying… mama, there ain’t no denyin’ I’ve been flying, ain’t no denyin’, no denyin’ E todos à mesa choravam, até mesmo os macaquinhos que não seguraram as lágrimas.  Jamile apareceu com um vestido de noiva todo ensanguentado.  Sentou na cadeira vazia ao meu lado e tocou na minha mão.  Deu um beijo apertado em meus lábios e mandou trazerem a comida. Um homem de chapéu preto, capa preta, tênis preto e calça branca trouxe uma enorme panela e a colocou sobre a mesa.  No bolso da camisa,  também preta,  um óculo preto.  Tirou a tampa e nos revelou o prato do dia: leitão assado  Comemos como se não tivesse amanhã,  e repetimos e repetimos.  Descansamos e jogamos conversa fora durante toda a tarde. À noitinha  eu, “Capenga boa de bola”, os macaquinhos ladrões, Jamile e o homem agora com chapéu branco,  capa branca,  camisa branca, tênis branco e calça rosa tentávamos cantar e tocar nossas músicas favoritas. Ele usava um óculos de grau enquanto tentava pegar as notas no violão.  Ríamos e cantávamos até a chuva iniciar. Foi um belo dia chuvoso. Todos corremos entre a escuridão da tempestade que limpava todo o vestido de Jamile e deixava à mostra seus seios desnudos. Deitamos, nos beijamos e nos amamos abaixo de trovões e gargalhadas dos nossos amigos curiosos. Desde então, eu e Jamile construímos  nosso espaço, nossa vida e memória. Voamos todos os dias e nunca mais paramos.

Parte do meu eu

Sincronicidade

Chegando em casa. Conecta. Ele sobe as escadas. Vibracall. Ela desaba na cama. Desejos suicidas. Pega. Busca, encontra. Vibracall. Ele, cansado de mais um dia de trabalho tira a camisa, a calça, os sapatos, joga os livros no tapete, desaba no sofá. Só de cueca, a mão por dentro da cueca. Acaricia o pênis. Ela permanece deitada, olha para o teto o ventilador a girar. “Ele viu. Cachorro nem responde”.

Milena

Tu não vai me adicionar?

 

Ramom

Me obrigue!

 

Milena

Você é sempre assim? Gosta que as pessoas se afastem de ti?

 

Ramom

Eu não sei por que eu iria querer pessoas ao meu redor. Sou autossuficiente.

 

Milena

Já adicionou?

 

Ramón

Já que insiste. Adicionada.

 

Milena

Já não era sem tempo.

 

Ramón

Já está me perturbando?

 

Milena

Já estou.

 

Ramon

Já deu, vou te bloquear.

 

Milena

Já?

 

Ramon

Já!

 

Milena

Não faz isso.

 

Ramon

Está bem. Mas sobre o que falaremos?

 

Milena

 

Ramon

Já se foi? Vaca!

 

Milena

 

Na sala de aula, ele. Alunos ainda não chegaram. Olha para a tela. A foto mostra ela com uma parte do rosto e a outra coberta por um volumoso cabelo negro. Estranho. Sedutor. Atraente. Medonho. Volta para os cadernos. Ela fuça recados dele. Ri. Brinca. Se toca. Sorri outra vez. Enviar? Enviar.

Milena

Que filme é esse?

 

Ramon

Porra, eu já disse! Whiplash,  você tem que ver.

 

Milena

Sim, ouvi falar. Vou baixar agora.

 

Ramon

Pois baixe, rapaz. E delicie-se.

 

Milena

Eu vi um que talvez tu goste: Timbuktu.

 

Ramon

É?  Está em cartaz, né? Você sabia que o Antônio Torres pediu para ser meu amigo?

 

Milena

Tá.

 

Ramon

Tá o quê?

 

Milena

Tá em cartaz.

 

Ramon

Ah.

 

Milena

Antônio Torres?  Reconheço que não conheço muito. Opa! É um escritor, não é?

 

Ramon

Sim, da Academia Brasileira de Letras.

 

Milena

Legal! Estou sofrendo procurado o filme. Baixou por onde?

 

Ramon

Não digo.

 

Milena

Está bem. Vou procurar aqui. Vê o filme que te falei.  Faria uma aposta que você irá gostar.

 

Ramon

Vou ler a respeito.

 

Milena

 

Ramon

 

Adiciona o endereço eletrônico de um blog com textos sobre prostitutas amarguradas. Pede para que ele leia. Se gostar, talvez escreva mais sobre aquelas putas que no fundo falam um pouco sobre todas as outras. Enviar? Enviar.

Ramon

Lerei.

 

Milena

Hm…

 

Ramon

Sinto falta de alguma coisa. Não sei o quê. Acho que de alguma continuidade.  Não fechou. Mas é como eu disse: escreva esquetes.

 

Milena

É… Não fechou. Escrevi faz tempo.  Reli hoje. Também percebi isso. Ainda não me debrucei para entender o que vem a ser essas esquetes que tu falas.

Ramon

É isso que fazes. São pequenos textos para teatro. Textos para encenação em um palco.

 

Milena

E é? Só escrevo isso então.

 

Ramon

Dá para pegar muitos dos teus textos e transformá-los em esquetes. Você poderia vender para grupos de teatro. Ficar rica, sei lá.

 

Milena

É algo que nunca tinha pensado sobre. Realmente preciso de dinheiro.  Estou pobre. Talvez não ganhe bolsa. Corte na educação… Tu agora divulga teus textos? Isso é algo novo.

 

Ramon

Estou meio que dando uma dinamicidade a eles. Pensando em, futuramente, escrever profissionalmente. Isso mais lá para frente.

 

Milena

Legal. Tá corajoso. Isso é bacana. Gosto dos teus textos.

 

Ramon

Cara, quando uma grande escritora amiga tua te pede isso tem um peso.

 

Milena

É.  Tem peso. Eu perdi minha coragem em algum lugar. Não escrevo tem um tempo.

 

Ramon

Ah, a coragem…

 

Milena

 

Ramon

É tão relativo. A maior coragem da vida eu não tenho, porque  tenho medo de sofrer e fazer sofrer. E a vida vai seguindo. Um dia explode tudo. Olha a coragem de ser franco contigo.

 

Milena

Engraçado que o tempo passa e estamos aqui falando coisas parecidas.

 

Ramon

Como assim parecidas?

 

Milena

Passou-se um ano e eu continuo sem muita coragem e tu com essas questões.

 

Ramon

É.  Algumas atitudes pesam mais que outra. Depois falamos mais sobre isso. Ocupado aqui. Cheiros.

 

Milena

Até.

 

Ele na sala de aula e ela no consultório médico. Envia outra vez um texto do blog, dessa vez sobre putas em bordéis. É algo sobre uma, duas, três transas na noite sem que o gozo tenha sido suficiente para saciar o desejo de ser querida. É como se não fosse. Como se nunca mais o fosse. Desejos suicidas lhe vêm à cabeça.

Milena

Vou tentar ajeitar para ser esquete.

 

Ramon

Um desafio: escrever sobre nós dando ênfase à sua impressão sobre a pessoa que aqui escreve.

 

Milena

História complicada. Já escrevi sobre você, no passado.

 

Ele, enquanto os alunos escrevem a redação solicitada, envia um vídeo da cantora ucraniana Ani Lorak em parceria com o georgiano Valery Meladze: Верни мою любовь , algo como dai-me amor.

Ramon

Para ajudar… ou não.

 

Milena

Já escrevi esse texto algumas vezes na minha mente. Acho que seria digno um dia parar para isso. Mas, me permita. Por quê?

 

Ramon

Por que estou pedindo?  Porque é importante saber.

 

Milena

É que fiquei curiosa sobre a sua curiosidade repentina.

 

Ramon

Não se preocupe, não precisa dar nome às personagens. Só quero saber a impressão que teve e tem.

 

Milena

Uma ventania que bagunçou um bocado.

 

Ramon

Verdade?

 

Milena

Que passou e deixou as coisas mais limpas.

 

Ramon

De qualquer forma quero saber.

 

Milena

Eu posso te dizer agora. Pode ser?

 

Ramon

Um momento.

 

Pede licença aos alunos, segue para o corredor. Mãos em água, tem uma leve ereção. Sorri e sua cada vez mais. Vibracall.

Ramon

Pode.

 

Milena

Gostaria de uma devolutiva  sobre sua impressões a meu respeito. É possível?

 

Ramon

Sim, claro. Mas já escrevi sobre você.

 

Milena

Sim. Mas gostaria de algo mais atual.

 

Ramon

É verdade. Estamos em outro momento.

 

Milena

Sim. Enfim, tu me surgiste num momento confuso, turbulento de extrema carência. E veio tamponar um vazio profundo que estava em mim. Foi algo forte e confuso. E na mesma velocidade que começou, terminou e de forma forte e intensa. Quando me lembro de você, no passado, penso em intensidade e sexo (que nunca se consumou, fora das imaginações). Hoje sinto muito respeito. O que tu me falaste e até hoje fala, tem peso. E de todas as palavras que tu me soltaste, nada me foi tão forte quanto os silêncios. E sou um bocado grata por esse nosso encontro desencontrado. Fez-me crescer.

 

Ramon

Não esperaria menos de você. Podes acreditar. Eu ia falar de sexo também. Sexo que nunca tivemos. Mas que um dia teremos. Discordo totalmente do “terminou”. Porque nunca termina.

 

Milena

É… Ficou em aberto.

 

Ramon

Eu tenho umas três vidas do passado que  nunca terminaram. Tipo acabou, mas não terminou. Não se bateu o martelo. Você me compreende?

 

Milena

Compreendo, sim. Sou mestre em vidas em aberto. Talvez, ainda tenhamos nosso momento. Mas, sinceramente, não vejo muita possibilidade disso.

 

Ramon

Acredite, vai acontecer.

 

Milena

Sua vez.

 

Ramon

Independente dos nossos relacionamentos, eu sei que alguma coisa aconteceu. Uma química talvez, mesmo que explosiva.  Um dia estaremos autografando o livro do outro e marcando uma noite de sexo, aquele que não tivemos.

 

Milena

É um bom devaneio. Quando penso nisso com você, penso em sexo no chão.

 

Ramon

Eu  em sexo brutal. Acredite, queria enfiar meu pau em ti naquela noite, ali mesmo na rua. A civilidade e o pudor sempre falam mais alto.

 

Milena

Eu lembro bem da sua mão passeando no meu corpo. A sensação é que se conheciam.

 

Ramon

Você é poesia pura. Tens uma sensualidade muito forte, algo de desejo, de entrega… Não sei se todos os homens gostam disso, mas me excita.

 

Milena

Quando estou envolvida, costumo me entregar. E foi muito fácil me sentir envolvida com você A sensação de entrega sexual foi simples. Talvez os astros expliquem.

 

Ramon

É… Talvez. Mas teremos nosso momento. Pode ser amanhã, depois de amanhã ou só daqui a 15 anos, você com três meninos e eu… Sei lá como. Acho que tenho problemas. Consigo imaginar e vislumbrar o futuro dos outros, mas o meu é só escuridão e vazio, como se não tivesse perspectiva, ainda que construa dia e noite o meu amanhã. Isso é estranho.

 

Milena

 

Ramon

Existe explicação nos astros?

 

Milena

Acho normal. Não tem nada mais simples do que a vida dos outros.

 

Ramon

Tem um filme alemão, que ganhou o Oscar, e acho que fala sobre isso.

 

Toca o sino. Os meninos saem correndo. Livre dela. Preso a ela. De frente ao espelho ela sorri.

Ramon

Preciso ir.

 

Milena

Já?

 

Ramon

É quase noite. Uma praça, um jornal à mão. Lê notícias sobre os recentes assassinatos e chacinas Brasil afora. Não tem jeito. Sentada em frente à TV, ela até tenta não se emocionar, mas Jane Austin sempre foi seu fraco na tela. Chora copiosamente. Vibra. É ele. 

Ramon

Ainda viva?

 

Milena

Eu?

 

Ramon

Sim.

 

Milena

Estou, acho.

 

Ramon

Voltou com aquele cara estranho? Está em outra, como estão as coisas? Vocês de 20 e pouquíssimos anos são muito imprevisíveis quando o assunto é coração.

 

Milena

Estou sozinha. Tentando.

 

Ramon

Não tente. Fique tranquila que é melhor.

 

Milena

Faz tempo que não faço sexo. Das últimas vezes que fiz, não estava entregue e percebi que isso me deixa mal.

 

Ramon

Sério? Culpa por fazer sexo?

 

Milena

Não, culpa não. Falta de entrega. Da minha parte.

 

Ramon

Entendo. Você conseguiu dormir com aquela menina?

 

Milena

Não. Claro que não. Ela é louca. Queria largar o namorado para ficar comigo.

 

Ramon

Interessante.

 

Milena

Desisti.

 

Ramon

De meninas?

 

Milena

Sim, de meninas. Prefiro homens. Faria um ménage. Paus são importantes.

 

Ramon

Certeza que eu também faria.

 

Milena

Já fizeste?

 

Ramon

Eu e meu irmão transávamos com as mesmas garotas no bairro. Isso conta?

 

Milena

Acho que não. Como você está. E as aventuras?

 

Ramon

Nenhuma. Continuo lendo muito e tentando deixar o corpo em forma. Também trabalhando feito um escravo.

 

Milena

Parece minha vida.

 

Ramon

Foi um ano tenso para a saúde, e acabei engordando, caindo os cabelos e ficando mais doente. Este novo tempo é de busca para a saúde perfeita.

 

Milena

Sensação boa é a de autocuidado.

 

Ramon

Tenho desejos no momento. De chutar o pau da barraca. Não sei se terei tanta sorte até o fim desse ano.

 

Milena

Sorte ou coragem?

 

Ramon

A coragem… Ei-la novamente.

 

Milena

São muitas instituições para se desfazer, né?

 

Ramon

De fato.

 

Milena

Você é um potencial subversivo. Mas lhe falta algo.

 

Ramon

Sinto que agora me conheces bem. Eu nunca disse isso a você, muito pelo contrário. Vou dormir. Está tarde. Estarei livre no domingo.

 

Milena

 

Ramon

Quem sabe na tarde de sábado?

 

Milena

Quem sabe… Boa noite!

 

Acorda. Olha para o lado. Encontra o objeto. Um vídeo… Nouvelle Vague.

Ramon

Acho que parece com você.

 

Milena

Gostei. Depois de um dia na emergência em um hospital.  Ótimo pra relaxar.

 

Ramon

Acertei dessa vez.

 

Milena

Já tinha ouvido.

 

Ramon

Francesas cantando bossa nova em inglês. Coisas desse mundo.

 

Milena

Mas não sabia quem cantava. Tomei um negócio legal na veia.

 

Ramon

O quê? Heroína?

 

Milena

Tramal.

 

Ramon

Dá na mesma.

 

Milena

E é? Heroína deixa alerta, né não?

 

Ramon

Heroína iria deixar você leve. Também tiraria sua dor.

 

Milena

A dor que não cessa…

 

Ramon

Tudo é droga.

 

Milena

Sei.

 

Ramon

Uma enriquece a indústria farmacêutica, a outra o tráfico. O que você tinha ou tem?

 

Milena

Mais uma doença de estresse.

 

Ramon

Como?

 

Milena

O médico disse que eram duas coisas. Torcicolo e cefaleia tensional. Eu já tenho a gastrite.

 

Ramon

Que tipo de gastrite?

 

Milena

Nervosa.

 

Ramon

Que pena.

 

Milena

Também tenho refluxo E renite.

 

Ramon

Tão novinha…

 

Milena

Eu sou um problema.

 

Ramon

Aquiete o coração.

 

Milena

Aproveite-se de mim, enquanto é tempo. Morro antes dos 35.

 

Ramon

Um desperdício. Para o mundo.

 

Bateria baixa. Descarrega. Olha para o lado e pela janela o céu azul. Vê um sol brilhante. Pega o primeiro ônibus rumo ao cinema mais próximo. Ela levanta, corre de um lado para outro. Um CD, La vie en rose. Nem se importa  e se põe a rodar. A rodar. A rodar. Tonta cai. Chora. Ri. Chora. Ri. E gira novamente. Deitado na cama. Ela Online.

Ramon

Ainda viva?

 

Milena

Mais ou menos.

 

Ramon

Estava assistindo House of Cards. É muito bom. Já viu?

 

Milena

Não tenho tempo para essas coisas.

 

Ramon

Passageiras? Não gosta?

 

Milena

Não.

 

Ramon

Querem me forçar a gostar de Breaking Bad.

 

Milena

 

Ramon

Sou chato, te contei?

 

Milena

Não precisa. Como tu és com modas? Não tenho nem televisão.

 

Ramon

Preciso ir. Aula. Abraços.

 

Busca um vídeo para surpreendê-lo. “Gostas de folk, certeza”, pensa. Ane Brum. All My Tears.

Milena

Curte? Você está aí?

 

Ramon

Me ama, aposto.

 

Milena

Amo? Acho pouco provável.

 

Ramon

Então deve ser desejo.

 

Milena

Mais fácil.

 

Ramon

Você é divertida.

 

Milena

Que aleatório.

 

Ramon

Toquei uma punheta dia desses pensando em ti.

 

Milena

Que romântico. O que pensou?

 

Ramon

Te pegando no chuveiro,  de costas,  com um vestido branco com detalhes em flor ou coisa do tipo. Foi depois da nossa última conversa.

 

Milena

Me toquei pensando em você depois da nossa última conversa.

 

Ramon

Não tenho que ser romântico com você. Aliás,  não consigo ser.

 

Milena

A vida e suas sincronicidades … Mas por que não consegue?

 

Ramon

Porque não é preciso. A gente se entende sem precisar de romantismo.

 

Milena

É… Até agora percebo isso como algo bom. Mas estamos bem no plano da fantasia, né?

 

Ramon

Tu sabes fazer massagem?

 

Milena

Nunca fiz.

 

Ramon

Ia pedir uma.

 

Milena

Tu podes me ensinar.

 

Ramon

Mas é massagem normal, para relaxar.

 

Milena

Devo saber. Não deve ser difícil.

 

Ramon

Gostas de motel?

 

Milena

Não.

 

Ramon

Meninas…

 

Milena

Tu gostas?

 

Ramon

Essa não é a questão. Mas por que você não gosta?

 

Milena

Não sei. Não me sinto confortável. Mas depende. Tem uns que são ótimos. Não curto camas redondas.

 

Ramon

No motel, transo no chão.

 

Milena

Por quê?

 

Ramon

Ainda não parei para pensar sobre o porquê.

 

Milena

Já transei no chão. Mas faz muito tempo. Hoje fez quatro meses que não transo.  Não é uma data a se comemorar.

Ramon

Acho que faz muito tempo que você não transa,

 

Milena

Jung  nos explica. Sincronicidade.

 

Ramon

Prefiro os astros. É mais romântico, mesmo que não sejamos.

 

Milena

Vamos acabar sendo, de tanto não ser.

 

Ramon

Podemos não ser, mas somos.

 

Milena

Na verdade, não somos muita coisa agora. Somos algo que poderia ser e que talvez seja um dia. Talvez…

 

Ramon

Prefiro não ser. Mesmo sendo.

 

Milena

Prefere? Prefiro ser algo. Mesmo que depois vire nada. Fez sentido pra ti?

 

Ramon

Entendi errado. Já que nada serei, por que não preferir n ser? Eu prefiro ser muitas coisas como prefiro não ser outras tantas.

 

Milena

Acho que as vezes vale o risco de tentar.

 

Ramon

Não tenho problemas em tentar.  Meu problema não é receio ou medo.  Sou homem de princípios (ainda que muitos deles tortos) e que tem conceito sólido sobre muitas coisas. Ainda que seja um rapaz flexível.

 

Milena

Que confuso. Fale a verdade, tu és bem pouco flexível.

 

Ramon

Nada.  Sou muito.

 

Milena

Não conheço muito dessa sua face então.

 

Ramon

Você tem uma bela vagina?

 

Milena

O quê?

 

Ramon

Se a acha bonita.

 

Milena

Não sei. Nunca pensei sobre isso.

 

Ramon

Vaginas podem ser bonitas para você?

 

Milena

Acho que não.

 

Ramon

Como não?

 

Milena

Só não acho vaginas bonitas.

 

Ramon

Eu tenho um pênis bonito.

 

Milena

Bom para você.

 

Ramon

Eu falei muito sobre mim nessa frase. Entendeste?

 

Milena

Acho que não completamente.

 

Ramon

Eu digo A e falo de B a Z. Você deveria ficar esperta.

 

Milena

Disso eu sei.

 

Ramon

Pula.

 

Milena

Tu me exiges demais. Nem sempre estou com a esperteza ligada.

 

Ramon

Tudo bem. Preciso ir.

 

Milena

 

Na lanchonete próxima à faculdade. Vibra.

Milena

Acho que sonhei contigo. Pela décima vez.

 

Ramon

Desejo, motel, vagina, punheta, pênis. Sonho.

 

Milena

Já é um título de texto.

 

Ramon

Não!  O título virá depois da trepada.

 

Milena

A real ou a da fantasia?

 

Ramon

Já transei com você na fantasia.

 

Milena

E eu algumas vezes em sonho.

 

Ramon

Transo bem?

 

Milena

Deveras bem.

 

Ramon

Um dia quero saber como transo. Você não pode fazer isso comigo. Me deixar sem saber.

 

Milena

Te digo um dia. E eu? Transo bem?

 

Ramon

Você é bem submissa. Do jeito que gosto. Gostas de ser mordida.  E apanhar na bunda até ficar vermelha. Gostas de ser penetrada virada para a parede.

 

Milena

Gosto de ficar de quatro?

 

Ramon

E sentir meu pau entrando forte. Nunca transamos nessa posição. Só te pego no chuveiro.

 

Milena

Transamos sim. No chuveiro é bom. Essa madrugada, transamos no banheiro.

 

Ramon

Já comi você no banheiro masculino do Cinema do Dragão. Podemos foder daqui a pouco de novo.

 

Milena

Acho que vamos. No banheiro masculino do Dragão? Parece interessante. Semana passada, transamos em seu apartamento. No seu sofá.

 

Ramon

Podemos repetir.

 

Milena

Com certeza. Foi tão bom. Eu gozei com você dentro de mim, puxando meu cabelo.

 

Ramon

Você prefere quando saímos para um motel ou na minha cama?

 

Milena

Num motel.

 

Ramon

Mesmo você odiando camas redondas?

 

Milena

Ainda assim prefiro.

 

Ramon

Repitamos qualquer dia desses.

 

Milena

Talvez.

 

Ramon

Nunca usei a palavra repitamos antes.

 

Milena

É pouco usual.

 

Ramon

Pois é.  Caiu bem aqui.

 

Milena

Uma primeira vez comigo. Que bonito.

 

Ramon

Nem vem.

 

Milena

Vou não.

 

Ramon

É possível que eu vá ao Dragão amanhã. No fim da tarde. Tenho que sair. Aniversário de parentes. Abraços.

 

Milena

Tchau. Se cuida. É possível que eu vá no sábado…

 

Ramon

Vai…

 

Milena

Tchau.

 

Ramon

Beijos!

 

Noite escura. Cama. Vira para um lado e para outro. Ela, na tela ela. Ele se toca, pensa nela. Deitada de bruços, costas nuas. Gozo. Nervosa tecla.

Milena

Angústia.

 

Ramon

Como?

 

Milena

Muito angustiada aqui.

 

Ramon

Por quê?

 

Milena

Não sei. Isso é o que me mata.

 

Ramon

Ansiedade?

 

Milena

Deve ser.

 

Ramon

Consegue se masturbar?

 

Milena

Sim, por quê?

 

Ramon

Porque relaxa. E a ansiedade se vai.

 

Milena

Nem funciona mais.

 

Ramon

Então é sério.

 

Milena

É… Sinto que estou entrando em um quadro grave de depressão.

 

Ramon

Vá à praia. Pegue o sol. Saia com pessoas felizes. Se abra. Chore Coloque tudo para fora. Não guarde pra si. Depressão é para ser compartilhada.

 

Milena

Estou tentando. Estou falando com você.

 

Ramon

Procure pessoas felizes.

 

Milena

Verdade. Mas acho que não conheço pessoas felizes. Onde encontro elas?

 

Ramon

Conheço várias. Daquelas que irritam. Sempre achei que pessoas felizes demais são as mais tristes.  Querem esconder a tristeza grande que mora ao lado.

 

Milena

Eu geralmente não me vinculo com pessoas muito felizes.

 

Ramon

Por isso estás tão triste.

 

Milena

Elas são chatas. Não compreendo tanta felicidade.

 

Ramon

 

Milena

Ainda aí?

 

Ramon

 

Milena

 

Ramon

Oi?

 

Milena

 

No ônibus lotado. Uma criança vomitou nas primeiras cadeiras próximas ao motorista. O cheiro insuportável. Espera descer na próxima parada. Senta. Aguarda o próximo. Ela.

Milena

Oi, simpatia.

 

Ramon

Olá.

 

Milena

Nossa! Tu respondes.

 

Ramon

Quando vejo… Escuta e chora. (Uma versão de Creep, do Radiohead)

 

Milena

Boa versão. Mas vejo essa música como algo doído, dá vontade de morrer. E não de foder.

 

Ramon

Foder? Quem falou em foder?

 

Milena

 

Ramon

Oi?

 

Milena

 

Outro dia de aula. Na mesa vibra call. Pede um segundo aos alunos. Que todos façam as lições das páginas 75 e 76 do caderno de atividades. Corredor.

Milena

Oi, criatura. Como estás?

 

Ramon

Com sono.

 

Milena

Trabalhando? Lembrei-me de ti dia desses.

 

Ramon

Você sempre se lembra de mim. Faz parte.

 

Milena

Não sempre, mas com mais frequência do que seria normal. Estou tentando lembrar uma música que me mandaste há uns três dias e não lembro. Ajuda. Foi a primeira música que mandou. Lembro que em algumas partes tem “your eyes”. O disco tem alguma coisa de hurt ou heart. Acho que o cantor começa com J…

 

Ramon

Não falei com você há três dias.

 

Milena

Falou não. Mas o que tem a ver? Estava a fim de ouvir a música.

 

Ramon

“Estou tentando lembrar uma música que tu me mandou há uns três dias e não lembro”.  Não falei com você nos últimos três dias.

 

Milena

Há três dias é o tempo que tento lembrar.

 

Ramon

A frase não foi construída direito.

 

Milena

Foi não.

 

Ramon

“Há três dias estou tentando lembrar…” Foi Heart do Jimmy Gnecco?

 

Milena

Isso! Obrigada

 

Ramon

Precisando…

 

Milena

A gente sempre precisa né?

 

Ramon

Tenho que ir.

 

Milena

Beijos.

 

Ramon

Abraços.

 

Em casa. Os livros didáticos na cama denunciam o dia seguinte de prova. Chama.

Milena

As vezes parece que a gente tem é que gritar.

 

Ramon

Como assim?

 

Milena

Nem sempre pedir com palavras é passível de compreensão.

 

Ramon

Não entendo. O que queres dizer?

 

Milena

Deixa pra lá.  Escapou. Adoro essa música.

 

Ramon

Vá à merda! Odeio essa enrolação. Gosto das coisas diretas, sem rodeios.

 

Milena

Certo.  Do que você tá precisando?

 

Ramon

Nada. Mas você, às vezes, não é direta. Não tenha medo comigo. Eu sou um homem sem pudores.

 

Milena

Não tenho. Já tive. Tenho mais não.

 

Ramon

Pois quando quiser me dizer algo, diga. Não me enrole e não se enrole.

 

Milena

Certo. Tu queres me dizer algo?

 

Ramon

Estou falando para o teu bem. Para o nosso bem. Estou falando de você e não de mim. Estou tranquilo.

 

Milena

A gente mal existe, rapaz. Mal lembro a cor dos seus olhos. Escrevi um texto pensando em você. Olha. (um ano antes)

 

Ramon

Em junho do ano passado?

 

Milena

Sim. Quero feedback.

 

Ramon

 

Milena

Ainda aí?

 

Ramon

 

Ela olha para o espelho. Pensamentos suicidas. Toca. É ele.

Ramon

Leria esse texto que fiz? É sobre sonhos que se sonha acordado.

 

Milena

Claro.

 

Ramon

Nossa! Angustiante e atormentador. Eu diria que daria um bom mote para um livro,  mas eu teria medo sobre o que sairia. Não conhecia esse teu lado tão sombrio.

 

Ramon

Isso surgiu quando fui  dar um sermão a um aluno, coitado. Estava zonzo de sono. Tentei falar com ele por três vezes, e na terceira surgiu a ideia. Aconteceu hoje na aula. Vou dormir, estou com muito sono.

 

Milena

Horário que dá sono.

 

Ramon

Vou indo.

 

Milena

Bons sonhos.

 

Ramon

Sonhe comigo.

 

Milena

Está bem.

 

Ramon

Agora me abrace.

 

Milena

Tá.

 

Ramon

Me beije.

 

Milena

Certo.

 

Ramon

Durma comigo esta noite.

 

Milena

Todas.

Ele desliga. Ela desconecta. Deita na cama só de cueca e o ventilador ao lado. Fecha os olhos e reza o pai nosso. Ela vai para a frente do espelho. Pensamentos suicidas. Seios à mostra, calcinha branca com corações vermelhos. Tira uma foto, aquela que ele pediu, só com partes do corpo. O seio, tão lindo, pequeno e juvenil. Enviar? Reconecta.

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Parte do meu eu

O café

Exatamente as 17 horas. Era sagrado.

Pegou o banquinho enegrecido,  levou até o batente e se escorou na parede.  Já que dona Lúcia e seu Zé chegariam.  Dito e feito,  não tardou dez minutos.  Café, compadre? Café, comadre? Me veja dois dedinhos, seu Juca. Eu vou querer também,  obrigada. Levantou-se, o ferrolho maldito,  soltou-se e caiu no tapete onde Dalila  estava deitada descansando o almoço farto de mais cedo.  Nem se moveu.  Foi até a cozinha, no bule o café fresquinho, feito agora pouco.  Ele é o chama para a vinda dos vizinhos.  A xícara negra para dona Lúcia e o copo de vidro trincado para seu Zé.  Será que não vai queimar o compadre?  Mas ele tem dedos fortes,  de homem trabalhador.  Apressa os passos com a bebida na mão.  Sai do meio da casa, Dalila! Nenhuma reação.  Seu Zé dá um gole de uma vez.

Volta aos cinco anos de idade quando a mãe,  dona Zefinha, logo cedinho, as 4 horas preparava o café da manhã do marido, seu Miguel,  e dos cinco filhos.  Dentre eles Zezinho, o caçula. Era o cafezinho coado num pedaço de pano que nunca se soube a procedência com um pedaço de tapioca passada na manteiga da terra.  Quando não,  com um punhado de farinha de mandioca. Zezinho gostava de misturar no café. Dona Zefinha até suspeitava,  coisa de mãe, mas não tinha certeza do momento mais feliz do dia para o menino.  Uma lágrima escorreu dos olhos de seu Zé.  Tá quente,  compadre?  Um pouquinho só.  Ha-ha-ha-ha É que com a falta de água num deu  para lavar as outras xícaras.  O jeito foi improvisar.  Ha-ha-ha Se incomode, não.  O sabor continua uma delícia,  Parabéns.

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E a comadre Lúcia?  Comadre? Dona Lúcia soprava bem o café e o vapor subia lhe trazendo lembranças de Airton, o mais cavalheiro dos homens,  aquele a quem Santa Maria,  Virgem Santíssima,  lhe presenteou três anos após a morte do marido, Francisco,  que só tinha dois objetivos na vida: encher a cara de cachaça e engravidar a mulher.  Sete,  tudo já criado quando a cirrose acometeu Francisco.  Foram meses de sofrimento a todos,  até que Nosso Senhor Jesus Cristo veio e o levou pelas mãos para o descanso eterno. Três anos depois,  o Governo, depois de décadas de descaso,  resolveu reformar todas as casas de taipa, transforma-las em alvenaria.  Foi um alvoroço só,  uma felicidade sem tamanho. Agora não iriam mais viver com o temor da doença de chagas,  cólera e leptospirose. Era chegada a redenção.

Para Lúcia pouco importava, o sofrimento causado pelo falecido esposo encalecera a jovem senhora,  que por pouco não fora engolida pelo mal da depressão,  doença de rico. Teve que morar seis meses na casa da irmã enquanto as obras da reforma não eram concluídas.  E foi no vai e vem da reforma,  levando o de comer para os operários que conheceu Airton. Nem se deu conta dos olhares e do sorriso amarelado toda vez que chegava com a marmita.  Com uma buchada de presente a ficha caiu. Socorrinha chegou com o prato e um recado.  Seu Airton disse que a senhora não há de recusar.  Quem?  O seu Airton,  tá com quatro semanas que ele fica de olho na senhora sem resposta.  Mas meu Deus do céu,  que diacho é isso,  Socorrinha?  Nem eu sei, Dona Lúcia.  Só vim trazer a buchada.

Recebeu meio  que a contragosto, mas surpresa.  Era seu prato preferido junto da panelada, claro.  Descobriu depois que Francisca,  a sobrinha,  Maria e Lourdes, e as amigas  estavam arranjando um romance entre ela e Airton. Bingo! Foi só mais três dias após saborear a buchada que em um comício para o Governo do Estado,  com apresentações de forró e Amado Batista que a primeira conversa aconteceu.  Dali em diante,  dona Lúcia e Airton só se separaram depois do câncer de pulmão,  culpa do vício maldito no cigarro,  um ou dois maços por dia durante maravilhosos 25 anos.  Airton sofreu o que não devia nos últimos dias, mas viveu livre e feliz ao lado de sua Naná,  como ele  carinhosamente passou a chamar a mulher.  Ajudou a terminar de criar os filhos de Lúcia e o que mais faz falta a ela é o cafezinho matinal com o pão bengala passado na margarina e molhado diretamente no negro líquido quente.  Nem esperava Lúcia levantar da rede e já chegava com o café da manhã.  Quando a diabetes e hipertensão chegaram era hora de mudar os hábitos,  e passou a tomar chazinhos de ervas sem açúcar,  sempre sob os cuidados de Airton. Mas sempre que tentava derretia o coração do homem que lhe cedia um café bem forte e adocicado.  Aquilo que era homem, disse sem perceber as gargalhadas dos compadres que estavam impressionados com a expressão abobalhada de dona Lúcia com o olhar perdido no tempo.  Oche, diacho.  O que esses homens tão olhando?  A senhora aí falando sozinha.  Tá pensando no seu Airton? Não é isso,  não,  seu Zé.  Tô rezando aqui para que Deus ilumine o futuro desses meninos tudinho aí.

Em frente a eles, um grupo de crianças corre de lá para cá, um atrás dos outros, que ao serem pagos ficam paralisados, uma brincadeira de menino.  Seu Zé aponta para frente e os três ficam admirando o por do sol acima da casa da Dona Luizinha. Nem um assunto a mais, só o findar da luz natural.  Logo as luzes dos postes seriam ligadas, os banquinhos recolhidos e o trio voltaria para suas casas, novelinha, sopinha e sono. Apareça amanhã, comadre! Apareça amanhã, compadre. Até mais, compadre. Até,  comadre.  Boa noite, compadre.

Parte do meu eu

Onironauta

escher

O motorista freou abruptamente sem avisar, tão forte foi o impacto que acordei atordoado. Peguei o livro no chão, no rádio alguma coisa sobre cada pedra vai voar, um coral insano, vozes femininas e  letras inalcançáveis. Eu, o cobrador e o motorista. Já avistava a parada. Parei em frente ao cobrador, cabeça baixa, respiração ofegante e olhos cerrados. Estava sonhando? Toquei com na bancada, não queria acordar, não queria acordá-lo, estava sonhando?

 

Bati com mais força. Queria acordar. Queria acordá-lo.

Moço preciso descer, disse em alto tom.

Onde estou? , balbuciou o homem. Apenas os lábios se moviam.

Estamos perto de eu passar da  minha parada, é onde estamos.

E esse prédio? De quem é esse prédio?

Achava que ele estava delirando, quando olhei para o motorista e por trás dele apareceu, como que num piscar de olhos, um prédio de uns vinte ou mais andares, nem contei tamanho foi o susto. Em cima do prédio, lá no alto um homem com um revólver na mão.

Não, você não vai entrar para a história. Vai sair da vida e tudo será pó, insistia o cobrador, olhos fechados.

Assim que seus lábios cerraram, o homem atirou contra o peito e caiu feito uma pedra em cima do viaduto que surgiu do lado do motorista. Tentei pular a catraca, mas o cobrador me pegou pelo braço tão forte que senti todo o corpo doer.

 

A passagem, disse com sorriso no rosto.

 

Passei no registrador a carteira estudantil , o cobrador autorizou. Voltou a dormir, dessa vez de forma mais profunda. Sentei ao lado da janela, curioso para saber o que acontecera com o homem caído na minha frente, em cima do viaduto, ao lado do motorista. Levantei da poltrona e fui ver o corpo. Revirei de lado para ver de quem se tratava. Era um senhor de sessenta e poucos anos, gordo, baixo, calvo e que ainda respirava. Disse para ficar acordado, pois pediria ajuda ao motorista. Não quero acordar. Não queria acordar, um tiro no peito. Chorava ele amargamente, tinha morte nas mãos, fome na testa e pobreza pelo corpo.

Levantei, olhei-o com mais cuidado e lembrei já ter viso aquele homem nos livros de história: Getúlio Vargas!!! Tremi.

 

Moleque!, gritou o cobrador sonâmbulo.

Então ouvi um choro tão forte e agudo que me assustei. Olhei para o lado e uma moça, loira, branca, de uns16 anos talvez, estava deitada entre os dejetos e lixo do dia anterior. Não era reciclável, e há dias que o caminhão não vinha busca-la. Já até cheirava mal. Fiquei preocupado com a demora do caminhão, pois a Prefeitura, geralmente não demora a recolher o lixo quando tem pessoas lá jogadas aguardando a reciclagem. Passava da meia noite e o motorista seguia viagem. Mas ele estava tão distante que eu não conseguia avisá-lo do corpo de Getúlio e nem da jovem que aguardava ser recolhida.

Subi na caçamba e a retirei de dentro, com cuidado para não ser visto, pois poderia ser multado em estar sujando a rua novamente. Andaluzia foi o nome que deram a ela antes de ser jogada, confessou. Pedi ajuda para tirar o corpo de Getúlio da rua e colocar no lugar dela. Todos os humanos jogados no lixo têm um registro junto à Prefeitura, e caso não tivesse ninguém no latão, outro parente de Andaluzia seria jogado no lugar dela, e mesmo indiferente à sua história de vida, não me custaria desovar o  corpo de Getúlio  e deixar a garota solta pela cidade.

 

Pegamos o corpo do ex-presidente e jogamos na caçamba, dei o revólver para Andaluzia que me beijou os dois ombros. Agora ela precisava ir embora. Eu tinha que chegar em casa antes que toda aquela poeira entrasse no meu quarto. Saí correndo em direção ao motorista, talvez por dez minutos sem parar. Ele ainda estava distante quilômetros e não parava o ônibus para que eu pudesse descer. O cobrador sonolento sorria ainda com os olhos fechados, cansado da correria do dia. Não queria acordar, não quero acordar.

 

Olhei ao redor e vi terra e mais terra. No horizonte pude perceber que já estava quilômetros de distância de casa, do motorista, de Getúlio, da garota, do prédio que surgiu de repente, do viaduto por trás do motorista e até do cobrador. No meio da tempestade de areia que foi se formando surgiu uma silhueta, me assustei. Não tinha como me esconder no meio do nada. O vulto se aproximava cada vez mais, e percebia-se que estava com uma arma em punho. Pensei na segunda morte. Vi que era Andaluzia, percorreu toda aquela distância para se encontrar comigo.

 

Disse ela que queria sair daquele lugar, mas não sabia como. Achava que eu tinha a solução. Expliquei que era preciso chegar até o motorista, mas como ele estava distante, e quanto mais corríamos em sua direção mais distante parecia ficar. Sentei no chão, fechei os olhos e procurei meditar. Dormi.

 

Acordei deitado em um prédio, de uns vinte andares, creio eu. Uma voz surgiu na minha cabeça, lembrando de todos os males que fiz à sociedade. Já estava triste com tudo o que tinha acontecido, e o homem falava de todas traições que cometi, as pessoas que matei e os amigos que persegui. Levantei cambaleante, toquei o bolso e senti uma arma guardada nele, calibre 38? Não, era uma arma pequena. Mas que me faria deixar tudo aquilo para trás, saindo da vida para entrar para a história. Um tiro no peito. Cai feito uma pedra, mas flutuei como papelão enquanto ia de encontro ao chão, e enquanto caia,  vi uma moça jogada no lixo, pobre desgraça de um Governo que não sabe mais cuidar de seus resíduos. Apaguei.

 

Quando dei por mim, a moça junto a um rapaz branco, cabelos castanhos e mochila nas costas me levavam nos braços e me jogaram na caçamba de lixo. Era a mesma moça que eu tinha visto há alguns minutos enquanto voava rumo ao nada. Agonizei por horas, e sempre lembrando das pessoas que matei, das brigas que vivi e dos amores que roubei. O sol já queimava meu corpo, e eu chorava baixinho, baixinho como um recém-nascido que há pouco desmamou.

O sol não deixava ver o mundo  fora, e aos poucos ele foi descendo, descendo. Olhei novamente para cima e vi um homem de terno, calvo, baixo, gordo, com uma arma na mão. Ele atira contra o peito e cai como uma pedra. Ou seria suave como um papelão?

 

Não o vejo mais. Me assusto, sinto dor. Começo a chorar mais alto, mais alto. Queria que alguém me acordasse. Quera? Ouço passos. Um homem põe a cabeça para dentro da caçamba onde estou, recua e depois volta. Tira-me da do meio do lixo. Digo meu nome: Andaluzia. Ele me desdenha sabe que não passo de um lixo descartável. Mas humanos são recicláveis, penso. Mostra-me o homem no chão e pede ajuda para colocá-lo na lata de lixo. Quer me ajudar. Ama-me. Ama-me? Acorda, pensei. O rapaz branco, cabelos castanhos está atordoado, me dá a arma e corre tão rápido que mesmo tentando não consigo alcançá-lo.

 

Ele quer ir pra casa, mas está cansado e não dorme. Dorme? Corro atrás dele, talvez uns dez minutos ou mais. Encontro ele em uma tempestade de areia. O rapaz está cansado, quer alcançar um motorista que só ele visualiza. Senta, fecha os olhos, medita. Aproximo-me dele e ele me beija os ombros, ainda de olhos cerrados. Sorri. Diz que não vou entrar para a história. Eu o amo tanto. Aproximo o cano do revólver do peito dele e dou apenas um disparo. Ele cai. Morto. Dorme profundamente. Fecho os olhos, choro. Mas passa. Está tudo escuro agora. Respiro ofegante, tento abrir os olhos e não consigo. Olhos cerrados. Ouço um barulho na minha frente.

Acorda. Acordo? Acorda.

Quando dou por mim, vejo um rapaz branco, de olhos e cabelos castanhos, mochila nas costas, tentando pular a catraca do ônibus sem pagar. Pego ele pelo braço com muita força. A passagem!, digo a ele com um sorriso no rosto. Moleque!

Parte do meu eu

Vi

Hoje vi,

Três árvores decepadas,

Um jovem olhando para a bunda da garotinha,

Um ganso deitado ao solo,  preso pelas patas,  se debatendo no chão molhado da chuva enquanto aguardava aflito o encontro com o facão,

Um pobre jumento preso a um poste,  encostado em um muro em baixo de sol ou chuva,

Um garoto de pés descalços,  pretos de sujos, dormindo ao lado do banheiro feminino do terminal de ônibus,

Um senhor jogando uma garrafa seca no meio da via,

Um motorista ao telefone,  enquanto levava um amontoado de gente sem fim,

Três policiais acessando as redes sociais ao celular quando do horário de trabalho,

Um senhorzinho morto de bêbado dormindo na parada de ônibus,

Uma rua alagada,

Motoqueiro transitando na ciclofaixa,

Pingos da chuva,

Raios do sol,

Uma casa para alugar,

Duas casas para alugar,

Muitas casas a alugar,

Uma senhorinha de camisa vermelha e um chapéu dos Estados Unidos,

Obama e Raul dando as mãos,

O líder supremo do Irã irritado,

Uma guatemalteca que vai discursar em protesto contra o governo brasileiro,

A escuridão do céu,

Caroços,

Lixo,

Mais lixo,

Muito,  muito lixo mesmo,

Um homem com a roupa toda ensopada de sangue,

Dentes careados,

A falta de dentes,

Sorrisos,

Frutas,

Lutas,

Trabalho,

Celulares,

Muitos celulares

Uma igreja pichada,

Uma escola pichada,

Várias casas pichadas,

A ambulância gritante,  ensurdecedora, pedindo passagem,

“Não buzine,  se anime”

Um sex shop e seus manequins sensuais,

Mais pichação

Três mulheres gordas na parada e um pobre pacote de pipoca,

Duas garotas furando fila,

Aquela moça que fingiu ser prioridade,

O rapaz alto e a menina pequena se beijando,  se abraçando,  inocentemente se amando,

Bundas, muitas Bundas,

E mais pipoca,

O médico gripado,

O médico chato,

O médico chato gripado,

A mulher grávida do deputado,

O deputado e sua mulher,  vinte anos mais nova,  grávida,

Sorrisos na fila

A revendedora de carros falida,  “vende ou aluga”

O sol, mais uma vez o sol. Depois da chuva o sol

Vende-se

Vende-se

Vende-se

A Vila Imaculada Conceição

Mais pichações

Testemunhas de a Jeová ou seriam Mórmons?

Super descontos

Super Baratão

Super Cometa

Super

Um  homem de olhos vermelhos

Quarenta pessoas a espera de atendimento,

Dor da filha ao ver a mãe debilitada,

Sorrisos sem dentes da criança nos braços da babá branca.

Semblantes sérios,

Guiche 13, senha 33

Star wave,

Bolsas,

Braços quebrados,

Pernas amputadas,

Uma maca e um corpo,

Choro

Portas abrindo e fechando

Olhares seguindo e chamando

Um homem de meia idade, solitário,  triste observando o mundo ao redor

Uma noite turva

Uma cama dura

E o fim do dia

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Parte do meu eu

Ser

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Nem sabia mais onde estava ou porque estava,  apenas parava e sentava,  olhando o horizonte sem medir as consequências do tempo vindouro,  que nem mais viria.  Chorou como há tempos não fazia,  mas nenhuma lágrima caía,  porque já secara todo desejo e motivação de exprimir o ardor dos olhos.

Sofrera muito desde que seu eu verdadeiro surgiu na tela e o chamou para viver intensamente a dor do ser por inteiro,  franco e ciente do medo,  da peste e da relação com o desconhecido.  Nem sabia mais quem era ou se era.

Agora vivia sem pensar,  mas sentia que não pertencia mais a lugar algum,  se é que teve lugar em sua vida algum dia,  e nem mais dormia. Visitou cada um dos seus sonhos,  andou entre iguais e viu desconhecidos rostos disparados pela noite fria e mítica.

Não se encaixava mais no espetáculo do encontro,  interminável destino do ser. Ouvia ao redor e não lembrava mais do outro.  Sorrisos,  apertos de mãos,  palavras soltas ao vento,  beijinhos no rosto,  tapinhas nas costas,  olhares e abraços apertados.  Nada mais daquilo lhe pertencia,  e sorria,  sorria como nunca antes em suas outras vidas faria,  porque de fato sorria,  sem medos ou dedos,  sem tempo ou dúvida,  sem motivos sorria,  sozinho perdido em seus devaneios,  certezas de vida, era sincero.

O teatro da vida foi a escola do riso,  do descobrimento do prazer extremo. Para além das falsas promessas da igreja enfeitada,  se viu dançando e cantando enquanto vomitava borboletas negras que saiam da música tocada.

Não pertencia aquele lugar, e sentia-se mal toda vez que pensava em quem foi e tudo o que fez para chegar ali, a lugar nenhum,  ao nada que nos reserva a existência humana,  ao delírio da noite quente,  aos velhos olhares tortos e cobranças diárias.  E lembrou de quando criança ia nos braços da mãe para casa depois da novela mexicana.

Cheiro de chiclete que o embebedava, cerveja e cigarro.  Era esse o cheiro da vida aos trinta e poucos anos,  peso acima do ideal,  calvície e cegueira precoce.  A dor nos pés e a dança esquecida.  Pouco se fez,  se é que fez.

E sonhou,

e chorou,

e sorriu,

e caiu,

e dormiu,

e morreu,

e correu,

e nasceu,

e bebeu,

e comeu,

e sorriu,

e dormiu,

e fumou,

e fodeu,

e gostou,

e amou,

e caiu,

e dormiu,

e ficou,

e partiu.